é urgente tomar posse de si
quando se é corpo-território

proteger-se nas trincheiras 
estabelecer fronteiras

meninos soldados 
corpos guerreiros

sou eu nos estilhaços do seu ódio 
somos nós nas suas mãos maculadas 
órfãos em nome do pai
mortos pelos filhos 
sem alma, sem espírito 
e nenhuma misericórdia 

no intervalo das coisas brutas continuam a crescer as avencas, 
essas de delicadas folhas de partidas e despedidas irremediáveis.

no intervalo das coisas duras as damas da noite ainda perfumam, como se falassem de rodas-gigantes sem qualquer diversão.

no espaço das coisas ásperas ainda se vê um horizonte, um limite que cega, totalmente branco.

no espaço de farpas e coisas pontiagudas a existência de um dragão, imenso, que não verá paraíso.

no meio das pedras, em algum canto ou rachadura, brota e persiste um vermelho-esperança-sabe-se-lá-em-quê.

e eu sorrio, pois, apesar de tudo, é tempo de morangos.

(para Caio F, que ainda faz brotar avencas em mim.)

Incontáveis dentes
Para o caçador: troféu
Da natureza: amuleto
Colar de dentes como força e proteção
Longas raízes 
Alcançam nervos, dores
Fazer das amarguras diárias
Do que restam dos ossos
Nossa mais forte armadura

Respeita o mar por onde navegou,
Recolhe solitário sua embarcação, com a mesma paz de quem chegou para iniciar viagem
Respeita o mar que é o outro,
Porque sabe que o sal que há em você compõe suor e lágrimas desse mesmo outro
Lembra que o infinito coube um dia dentro de uma concha
Que agora, estilhaçada em ossos, 
Resistem em uma constelação de pérolas.